A utilização da Cannabis medicinal vem transformando a rotina de centenas de famílias brasileiras que enfrentam diagnósticos complexos, como epilepsia refratária e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Um exemplo desse impacto é a história do jovem Anthony Daniel, de 11 anos, e de sua mãe, Daniela dos Santos Pereira. Após uma década convivendo com crises convulsivas frequentes — que chegavam a quatro ou cinco episódios por semana e exigiam o uso simultâneo de 11 medicamentos —, a família encontrou no tratamento complementar à base de óleo de Cannabis um novo rumo para a saúde e a qualidade de vida.
O tratamento de Anthony teve início em setembro de 2025 por meio da Angatu, associação que facilita o acesso à terapia, sob a supervisão do médico de família Bruno Amato, professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Desde o início da administração complementar do extrato, as crises convulsivas do garoto cessaram, permitindo o desmame gradual de três medicamentos e proporcionando avanços significativos no sono, na interatividade e na autonomia do menino, que passou a praticar esportes e frequentar a escola com mais confiança. O resultado positivo também se estendeu à mãe, que posteriormente iniciou o uso do fitoterápico para tratar dores da fibromialgia e episódios de depressão.
Respostas individuais e a importância da evidência científica
Apesar dos avanços observados em relatos como o de Anthony, especialistas enfatizam que os resultados da Cannabis medicinal variam conforme o perfil biológico e a patologia de cada indivíduo. O médico Bruno Amato destaca que o uso de canabidiol (CBD) possui forte consolidação científica para síndromes epilépticas específicas, como Dravet e Lennox-Gastaut, e atua como importante adjuvante nas epilepsias pediátricas refratárias. Em relação ao autismo e outras condições, as pesquisas continuam investigando os efeitos dos canabinoides sobre os sintomas associados, exigindo acompanhamento médico individualizado e pactuação responsável das expectativas.
Lucas Candini Soares, um dos fundadores da associação Angatu, pontua que a substância não deve ser encarada como uma promessa universal ou solução única, mas sim como uma ferramenta terapêutica que exige dosagem, formulação e monitoramento constantes.
Cenário nacional, regulamentação da Anvisa e formas de acesso
Atualmente, cerca de 873 mil pacientes fazem uso medicinal de produtos derivados da Cannabis no Brasil, com o suporte de 315 associações em atividade. No entanto, os pacientes ainda enfrentam barreiras como a escassez de profissionais prescritores habilitados, o alto custo de medicamentos importados e a necessidade de acompanhamento contínuo.
No âmbito regulatório, o país atualizou suas diretrizes em 2026 por meio de três novas resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa):
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RDC 1.013: estabelece critérios para o cultivo de Cannabis sativa voltado a fins medicinais e farmacêuticos, mediante autorização e controle de segurança;
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RDC 1.014: institui um ambiente regulatório experimental (sandbox) para testar atividades do setor;
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RDC 1.015: atualiza as normas para a fabricação e importação de produtos de Cannabis para uso humano.
Para iniciar o tratamento de forma legal e segura, o paciente deve obrigatoriamente passar por avaliação de um profissional de saúde habilitado. O acesso pode ser realizado pela aquisição de produtos regularizados no mercado nacional, por importação excepcional autorizada via cadastro na Anvisa ou pelo auxílio de associações de pacientes regulamentadas.

