Antônio Pereira do Nascimento desconfiou da abordagem após criminoso exigir o pagamento de taxas antecipadas para a liberação de valores de sua ação judicial.
PALMAS – O motorista palmense Antônio Pereira do Nascimento, que ganhou notoriedade nacional após voluntariamente devolver R$ 131 milhões depositados por erro em sua conta corrente, quase se tornou mais uma vítima do golpe do falso advogado. O trabalhador, que vive uma rotina humilde na capital do Tocantins, percebeu a tentativa de fraude antes de realizar qualquer transferência financeira. O caso acende um alerta vermelho na segurança pública do estado, mostrando que até mesmo pessoas com processos de grande repercussão estão na mira de quadrilhas especializadas em estelionato digital.
A abordagem criminosa ocorreu por meio de mensagens de celular. Aproveitando-se da exposição pública do caso de Antônio e do livre acesso aos dados de distribuição processual do Poder Judiciário, o estelionatário montou uma estratégia altamente detalhada. Ele utilizou fotos reais do verdadeiro defensor do motorista, de sua esposa e incluiu o número correto da ação judicial que tramita na 6ª Vara Cível de Palmas para tentar passar total credibilidade à vítima.
A Tentativa de Extorsão Contra o Trabalhador
Na mensagem enviada a Antônio, o criminoso afirmava falsamente que a Justiça já havia dado o parecer final sobre o processo de danos morais — cujo valor pedido na ação legítima é de R$ 150 mil — e que o dinheiro estava pronto para ser sacado. No entanto, para que o suposto alvará judicial fosse liberado e a quantia entrasse na conta do motorista, o estelionatário exigiu o pagamento imediato de uma taxa financeira.
Foi exatamente nesse momento que o trabalhador percebeu o mecanismo do golpe do falso advogado. “Quando me cobrou dinheiro, eu vi que era fraude. Disse que tinha saído já o resultado lá, mas foi mentira. Pagar taxa? O advogado não cobrou taxa nenhuma minha, nadinha, foi de graça”, relatou Antônio de forma bem-humorada. Para sanar qualquer dúvida, ele entrou em contato com o seu real procurador legal, que confirmou a tentativa de crime e explicou que essa abordagem tem se tornado assustadoramente frequente no Tocantins.
A Engenharia Social por Trás do Crime
O golpe do falso advogado funciona através de uma engenharia social bem estruturada e dividida em fases. De acordo com investigações recentes da Polícia Civil do Estado do Tocantins, que inclusive desarticulou uma organização criminosa voltada a essa prática, os criminosos realizam inicialmente uma triagem minuciosa em sistemas de consulta pública de tribunais de todo o país. O objetivo é catalogar processos que envolvam ordens de pagamento, requisições de pequeno valor (RPVs) ou indenizações iminentes.
Com os nomes das partes e dos advogados em mãos, os golpistas criam perfis falsos em aplicativos de mensagens utilizando as identidades visuais de escritórios reais. Na fase de execução, eles entram em contato com os clientes se passando pelo profissional contratado. Demonstrando amplo conhecimento sobre os detalhes internos da ação judicial, eles induzem a vítima a realizar transferências sob o pretexto de quitar custas, emolumentos cartorários ou tributos fictícios para “destravar” os valores.
Como se Proteger: Guia Prático da Secretaria de Segurança Pública
Para evitar que mais cidadãos tocantinenses caiam no golpe do falso advogado, a Secretaria de Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO) emitiu um conjunto de diretrizes de segurança essenciais para o dia a dia:
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Desconfie de números novos: Escritórios de advocacia raramente mudam de número sem aviso prévio. Se receber mensagens de um perfil novo usando a foto do seu advogado, não envie dados nem faça pagamentos.
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Não pague para receber valores: Lembre-se de que nenhum juiz ou advogado solicita pagamentos de taxas antecipadas por Pix ou boleto como condição obrigatória para a liberação de alvarás de ganhos de causa.
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Verifique a conta de destino: Ao realizar qualquer transação bancária ligada ao seu processo, certifique-se de que a conta bancária ou a chave Pix pertence ao CPF do advogado ou ao CNPJ do escritório contratado, nunca a terceiros desconhecidos.
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Faça uma dupla checagem: Antes de fechar qualquer pagamento, ligue para o número de telefone fixo oficial do seu advogado ou compareça pessoalmente ao escritório dele para confirmar a veracidade do pedido.
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Consulte os meios oficiais: O andamento de qualquer processo pode ser checado gratuitamente nos portais dos tribunais ou por meio de consulta direta junto à subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Relembre o Caso dos R$ 131 Milhões
A trajetória que colocou Antônio sob os holofotes começou em junho de 2023, quando um erro operacional gravíssimo de uma instituição financeira resultou no depósito involuntário de exatos R$ 131.870.227,00 em sua conta corrente. Apesar de ter apenas R$ 227 de saldo real na época, o motorista agiu com integridade imediata e procurou o banco para realizar o estorno integral da fortuna.
Contudo, a honestidade trouxe dores de cabeça inesperadas. Antônio relatou ter sofrido intensa pressão psicológica por parte da gerência para reverter o erro. Além disso, o sistema automatizado do banco mudou o status de sua conta para a categoria “VIP” devido ao trâmite milionário, o que elevou a tarifa de manutenção mensal de R$ 36 para R$ 70, gerando profunda indignação no trabalhador.
Em julho de 2024, ele ingressou com uma ação judicial na 6ª Vara Cível de Palmas contra o Bradesco. A defesa de Antônio pede o pagamento de 10% do montante devolvido (cerca de R$ 13 milhões) a título de direito de recompensa por achado, conforme prevê o Código Civil Brasileiro, além de R$ 150 mil por danos morais devido aos transtornos gerados pela instituição. O caso aguarda o julgamento antecipado, após a Justiça dispensar a convocação de testemunhas.

